Sinopse - Voando em um Céu Solitário

No início da década de 50, a sua paixão por voar e pela aventura se fazia notar desde a infância, quando o seu passatempo preferido era o antigo aeroporto São João em Porto Alegre-RS, assistindo as decolagens e pousos dos aviões que faziam a sua imaginação transportá-lo para terras longínquas, as quais jamais esqueceu.

No ano de 1956, ainda muito jovem, foi impossibilitado de ingressar em uma escola de aviação para tornar-se piloto por não ter a idade mínima necessária.

Alterou seus documentos, aumentando a sua idade para poder ingressar como voluntário na Escola de Pára-quedistas do Exército, tornando-se, então, pára-quedista militar no ano de 1957 aos 15 anos de idade com o nº 511 na 2ª Cia. De Fuzileiros do Batalhão Santos Dumont, no Núcleo da Divisão Aeroterrestre, em Marechal Hermes-RJ. Nesse tempo aprendeu técnicas acrobáticas para executar manobras feitas fora dos aviões em vôo, tendo como instrutores os pára-quedistas Feijó, De Carli e o francês Charles Astor que naquela época estava no Aeroclube do Brasil, em Manguinhos, no Rio de Janeiro.

Ao terminar o serviço militar, despediu-se da 2ª Cia. De Fuzileiros deslocando-se para o Aeroclube de São Leopoldo-RS, onde iniciou as demonstrações acrobáticas, pendurando-se no trem de pouso e montantes dos aviões em vôo, sem nenhum equipamento de segurança, durante as festas de aviação, com a finalidade de atrair as pessoas para fazerem vôos panorâmicos nos aviões que estavam a espera nos aeroportos de suas cidades. E, assim, terminou por integrar-se ao Aeroclube de São Leopoldo como era sua meta e ajudado por seu pai e trabalhando como auxiliar de manutenção e na limpeza ficou morando no hangar do Aeroclube, onde terminou sendo beneficiado com uma bolsa de estudo para o curso devido a sua determinação de tornar-se um piloto, vindo depois a se tornar instrutor de vôo neste mesmo Aeroclube.

Como instrutor, permaneceu um ano e meio passando para outros alunos a técnica e a essência do vôo além de acumular as horas de experiência necessária à vida de um piloto profissional. Por isso, sempre disse ser esta uma época de grande beleza em sua vida.

Após Ter recebido sua a sua licença de piloto para operar em aeronaves usadas em vôos de táxi-aéreo, mudou-se para a cidade de Londrina-PR, onde ingressou na STAR (Sociedade de Transportes Aéreos Regionais) que, na época, possuía vinte e dois aviões e, nesta empresa, que sempre desejou voar, iniciou a sua vida profissional. A STAR possuía alojamentos na lateral do seu hangar para os pilotos que quisessem morar no aeroporto e, mais uma vez, ficou morando junto aos aviões.

No início da década de 60, efetuou um vôo de fretamento em um avião Beechcraft Bonanza da empresa STAR para a cidade de Asunción, capital do Paraguai, e acabou por conhecer o mundo que estava se iniciando, naquela época, que era o transporte aéreo de contrabando de cigarros americanos e whisky para a Argentina, Uruguai, Bolívia, Chile e mais tarde o Brasil e outros países ao norte da América do Sul.

Mudou-se para Asunción conhecendo então jovens pilotos como ele, alguns quase meninos, vindos de vários países, e iniciaram com a sua audácia a lendária “legião estrangeira”, e que foi assim chamada pela mescla das nacionalidades e pela variedade dos idiomas que falavam. Formou-se, assim, a linha central de sua estrutura, pois tinham o apoio do governo paraguaio para o que consideravam mais importante: voar sem limites.

Tornaram-se conhecidos no Paraguai e famosos no céu dos países que voaram pela ousadia e feito de seus pilotos que, como ele, tinham nos olhos o brilho do azul do céu, da aventura e da fortuna, pois para eles voar era a forma mais pura de viver, apesar de o destino cruel muitas vezes invadir e violentar as suas vidas, tingindo de escarlate rutilante o céu em que viveram.

Iniciou, então, um novo tipo de vôo transportando cargas de cigarros americanos e whisky para muitos países na América do Sul. Criou para si a condição que intimamente em seu silêncio gostava de vislumbrar, que era a de percorrer grandes distâncias em vôos solitários. Isso fez com que aumentasse o raio de ação dos aviões que pilotava, ficando conhecido como um especialista em voar longas distâncias, em que pistas longínquas era um desafio pela autonomia dos aviões e pela imensidão do continente sul-americano que muitos preferiam não enfrentar.

Alguns anos depois, por problemas interno do governo paraguaio, foram suspensos os vôos de carga partindo do seu território para outros países, surgindo, então, a necessidade de se efetuar vôos de longa distância, que iriam decolar do Panamá, na América Central, em direção à América do Sul.

Criou-se então o cenário e o percurso da desafiadora e mortal linha aérea riscada sobre o mapa do continente sul-americano. Ali, os pilotos da “legião estrangeira” mostrariam o seu arrojo e a sua perícia ao longo de uma nova e extensa rota para seus frágeis aviões; com motores de pouca potência e velocidade para o trabalho exigido, tendo o nível de vôo limitado pelo peso transportado em suas fuselagens e por uma autonomia considerada crítica para as distâncias a serem percorridas, representando um constante desafio para os pilotos, aliadas às condições meteorológicas que alternavam continuamente em função do clima tropical naquelas latitudes, pois as grandes formações de nuvens formavam barreiras às vezes intransponíveis, mostrando a sua fúria através das marcas deixadas nos aviões pelo granizo dos gigantescos cúmulus-nimbus que se projetam até 45.000 pés e, muitas vezes, mostravam a sua turbulência em dimensões impossíveis de suportar, com ventos registrados em seu interior com mais de 350km de velocidade e com deslocamentos verticais de até 9m por segundo. Esses componentes somados mais a velocidade de penetração da aeronave, podiam danificar a estrutura arrancando-lhe uma asa, já que uma aeronave com excesso de peso se torna frágil na turbulência. Ao atravessarem um mau tempo na Amazônia, nunca tinham a certeza se sairiam no outro lado e muitos ali desapareceram, pois, no início, os aviões usados não possuíam radares meteorológicos.

Decolando com excesso de peso em temperaturas altas e voando durante a maior parte do tempo em aeronaves que tiveram que ser adaptadas para vencer as distâncias a serem percorridas sob um céu que ficou conhecido e temido pelo sobrevôo nos lugares mais inóspitos do planeta Terra, como a cordilheira dos Andes, a floresta Amazônica e o mar do Caribe, a parte mais amena do percurso, fez com que muitos pilotos desistissem de voar com freqüência na famosa long-ranger ou simplesmente, esquecessem que ela existia procurando vôos mais curtos.

Não podiam alternar ou pousar em determinados aeroportos que estavam em sua rota, porque algumas autoridades não concordavam com o trânsito de um vôo sem controle dentro de suas fronteiras, ou pelas altas taxas cobradas para pousos e decolagens. E era isto que fazia com que seus aviões fossem considerados fora da lei em determinados países, lembrando no passado os piratas com seus barcos à vela que navegavam no mar do Caribe carregados com mercadorias provenientes de seus saques em alto mar, que procuravam somente os portos onde gozavam de proteção.

Neste momento, a sua experiência qualificou-o para mais este desafio que ele manifestou através do desejo de enfrentar acreditando que todo vôo poderia ser feito. E mais uma vez insinuava o seu perfil aventureiro para o que ele considerava mais uma missão de rotina a ser cumprida em sua vida de piloto. E, assim, denominou-se de long ranger o vôo que mais tarde seria batizado de “aerovia da morte” pelo grupo de pilotos que nela voaram, pelo alto índice de acidentes e desaparecimentos de aviões ao longo do percurso, ligando a América Central ao continente sul-americano onde muitos pilotos jamais regressaram, ficando perdidos para sempre tendo somente seus aviões como ataúdes.

Neste espírito de vencer mais uma etapa, equipou os aviões que voava com tanques de combustível suplementares, aumentando a sua autonomia para vencer a distância de 3600mn (milhas náuticas), em que se mantinha por maior tempo em vôo de cruzeiro, evitando escalas que poderiam representar problemas de toda espécie. À medida que o tempo seguia a sua marcha, acabou por tornar-se um veterano na temida “aerovia da morte” e, apesar dos desafios que ela representava, acabou por criar intimidade e conviveu com a mesma em milhares de horas de vôo.

Os anos passaram-se e a política que mantinha a possibilidade de se continuar voando foi modificada devido a pressões internacionais, motivando a queda do Gen. Alfredo Stroessner, então presidente do Paraguai, em um golpe militar. Mais alguns anos e ficou impossível de se voar com carga em vôos clandestinos que dependiam de um país para homologar pousos e decolagens, chegadas e saídas com planos de vôos internacionais.

Afastado do vôo e dos aviões por motivos fora do seu controle, teve que aceitar a proibição dos vôos como uma sentença implacável e definitiva, para ele e outros pilotos, que se tornaram os últimos sobreviventes da “legião estrangeira”, em uma guerra não declarada que tinha como base de operações o território paraguaio, de onde decolavam com destino aos países em que seus aviões eram considerados mercenários e inimigos e aos quais tinha que ser aplicada a lei. Terminava assim uma era em que o sonho de voar em liberdade fazia parte de seu espírito e no qual viveu durante quatro décadas, porque voar era a parte mais importante de sua vida.

Então, sentindo-se só e longe do que mais amava, partiu para o mar no ano de 1997, a bordo do seu veleiro de nome Lord Jim, e navegando na costa brasileira começou a escrever este livro que tem como título: Voando em um céu solitário, como uma maneira de viver mais uma vez a odisséia que vivenciou em um céu distante e solitário ao longo de sua vida.

Narra de uma maneira simples e sensível a rotina dentro da cabine dos aviões, onde o cheiro de óleo e gasolina se misturavam como um aroma sem o qual não poderia viver, e onde os pilotos da “legião estrangeira” eram como aves de rapina iguais as águias e aos falcões que viviam em liberdade no azul do céu e possuíam no instinto de voar a razão de suas existências em um mundo somente deles, pois deles dependia a sua sobrevivência em uma luta sem fim travada em um céu sem fronteiras, em um final sem glória. Por isso, agradece à vida em que teve o privilégio de ter tido a visão da águia e ter permanecida a maior parte do tempo nas alturas em um céu maravilhoso, mas nem sempre fraterno e onde muitos de seus companheiros voaram para sempre. Relata os problemas que o piloto enfrenta no dia-a-dia da sua atividade que apesar da tecnologia sempre crescente que a envolve, ainda faz com que ele tenha que tomar decisões que, às vezes, envolvem riscos como “viver ou morrer”, associado à aventura de cruzar fronteiras em aeronaves piratas sem matrícula e nacionalidade, invadindo espaços aéreos, muitas vezes, controlados por radares e vigiados por aviões militares armados para reprimir qualquer aeronave não identificada dentro de suas fronteiras, pousando em suas pistas e aeroportos, driblando as forças policiais militares e os seus serviços de informações encarregados de vigiar e prender quem tentasse pousar em seus territórios, o que tornava estas ações uma operação de guerra, em que o confronto era imprevisível e, às vezes, mortal, representando um risco difícil de ser avaliado.

Além disso, relata as operações de resgate que eram executadas por pilotos da “legião estrangeira” para retirar suas tripulações de acidentes e problemas que ocorressem nos países em que estivessem operando, vôos que poderiam ser feitos a qualquer momento durante o dia ou à noite, conforme a necessidade do resgate, coordenados pela equipe de terra da área e, por isso, muitas vezes realizados em condições meteorológicas desfavoráveis e com uma segurança em terra que desaconselhava a tentativa do mesmo e que, muitas vezes, o bom senso nem sempre ocupava o seu merecido lugar. Essas missões eram de extrema complexidade cercadas por informações confidenciais contando com o apoio de uma equipe de terra em solo inimigo, engajada na operação para que o vôo tivesse sucesso e, na qual, o piloto tinha que confiar cegamente no plano traçado e na voz no rádio que o iria orientar para o pouso na parte final da operação, vindo a representar um alto risco para todos os envolvidos, porque eram violados os espaços aéreos que cada país tem como suas fronteiras, e os aviões que penetravam em seus territórios sem identificação era invasores, portanto considerados alvos inimigos plausíveis de qualquer ação de represália, em vôo, ou em terra. Entretanto, com verdadeiros atos de heroísmo e desprendimento arriscavam as suas vidas para salvar aqueles que, como eles, decidiram viver no azul do céu.

O autor expressa a sua maneira de pensar sobre a perda da liberdade para quem faz do vôo a essência de sua vida, pois; viver como um pássaro provoca sentimentos de confronto com a perda da liberdade. Esses sentimentos são impossíveis de compreender e externar, o que vem a justificar para a sua consciência os resgates feitos, alguns com êxito e outros sem sucesso, bem como os sobrevôos executados tentando localizar aeronaves desaparecidas, porém muitas jamais encontradas, sendo por isso o vôo do resgate chamado de o “vôo da esperança” para aqueles que esperavam vir do céu a salvação. Atitudes e ações deste tipo jamais poderiam partir de um piloto mercenário.

Este talvez seja o motivo deste livro, que mostra o risco que certos homens enfrentam durante a sua existência e o aceitam na intimidade de suas vidas, tornando-os diferentes daqueles que seguem caminhos predeterminados, em que a vida é um rio de águas mansas com sabor de eternidade.

No conteúdo deste livro, o autor narra a vida fascinante e muitas vezes trágica, nômade e aventureira de quem viveu em um céu azul e, às vezes , tempestuoso, acumulando mais de 26.000 horas de vôo ao longo de quatro décadas, convivendo com as águias e os falcões, em um mundo mágico pleno de paixões belezas e tragédias.